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REVENIR N'EST

PAS UN VERBE

Voltar Não É Verbo é um projeto de documentação, arquivo vivo e criação artística, estruturado em quatro dispositivos interdependentes: exposição-performance, livro-dossiê, filme híbrido e práticas de transmissão.

 

O projeto parte do exílio como condição fundadora e propõe registrar, de dentro da solidão assistida, modos de reagir às barbáries de um mundo marcado pelo avanço da censura, pelos ataques a artistas dissidentes e pela precarização sistemática da vida de corpos racializados, LGBTQIA+ e soropositivos.

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Um projeto de urgência!

Voltar Não É Verbo é desenvolvido a partir da experiência real de perseguição política, censura e deslocamento forçado vividos pelo artista brasileiro Órion Lalli. Essa trajetória é transformada em linguagem poética e documental, distribuída em quatro diferentes formatos de criação.

 

"Au moment où j’ai compris que je n’étais plus en sécurité dans mon propre pays, j’ai commencé à enregistrer. J’ai filmé les persécutions de l’État, les violences du cis-tème, la censure. Je documentais déjà ma propre urgence. Le témoignage devenait ma seule protection, la base même de ma création." Órion Lalli

Percorrer esse trajeto implica tocar diretamente no desmonte das políticas públicas de HIV/Aids no Brasil, especialmente após 2017, quando o país abandona sua posição de referência internacional no enfrentamento da epidemia — ano em que o artista descobre que viverá com HIV.

O projeto reúne o registro audiovisual da fuga e do pedido de refúgio, o acolhimento temporário em uma ONG francesa voltada a pessoas em situação de refúgio e a convivência cotidiana com refugiados de diferentes países.

É nesse novo território, em um espaço precário, provisório e instável, que se forma um núcleo criativo improvisado entre quatro artistas: Órion Lalli, Âmbar Armas, Nataliya Permitina e Arsenii Mazhuga. Exilados de origens distintas e sem idioma comum, o grupo responde à experiência do exílio por meio da criação artística, da performance, da poesia e da invenção de rituais linguísticos compartilhados.

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résumé

Dessa experiência coletiva nasce um acervo inédito, composto por vídeos, áudios, documentos, cartas, fotografias, relatos pessoais, arquivos de imprensa e registros de espetáculos e performances realizados no exílio. A partir desse momento, Órion inicia a organização sistemática de materiais de seu acervo pessoal, produzidos entre 1994 e 2026.

Em 2026, o objetivo é transformar essa história em memória pública e produção de conhecimento sobre necropolítica, migração e arte. O projeto se apresenta como testemunho direto das violências políticas e das condições de vida no sistema migratório europeu, narradas pelos próprios protagonistas dessas experiências, constituindo um material de referência descentralizado para instituições culturais, universidades, centros de pesquisa e políticas públicas. Trata-se de contar a própria história a partir de quem a vive.

Para isso, o artista estrutura o projeto em quatro dispositivos articulados entre si, cuja realização foi pensada para a La Fab, considerando sua relação histórica com o ativismo e com as temáticas do projeto, servindo como dispositivo ativo de transmissão de uma história que atravessa diretamente a Europa contemporânea, suas políticas migratórias, seus sistemas de triagem da vida e seus limites éticos.

Dispositivos do projeto

  1. Exposição-performance: OUTLET $IDA + obras correlatas

  2. Livro-dossiê: A Chave de Casa, Eu Guardo Onde? (edição francesa)

  3. Filme híbrido: Voltar Não É Verbo

  4. Práticas de transmissão: Oficinas CAMPO DE VISÃO

Exposição-performance
OUTLET $IDA + obras correlatas

 

OUTLET $IDA é uma exposição-performance de longa duração, ativada diariamente durante o mês de dezembro de 2026. Concebida inicialmente para a Galerie du Jour.

O espaço expositivo é transformado em um supermercado fictício, inspirado nos comércios populares brasileiros. As prateleiras exibem produtos simbólicos ligados ao corpo, ao HIV, ao controle médico, à vigilância farmacológica e à economia da sobrevivência.

Durante todo o período expositivo, o artista ocupa o espaço como trabalhador-performador.

A instalação-performance nasce da urgência de questionar a mercantilização dos corpos e os sistemas que moldam, controlam e descartam essas existências. O artista cria um outlet viral e itinerante, no qual o próprio corpo se transforma em vitrine e mercadoria.

O que está à mostra não são apenas objetos, mas fragmentos íntimos condensados em gestos cotidianos: escovar os dentes, tomar um comprimido, trocar de roupa, limpar a privada. Cada ação se converte em produto. Cada gesto se torna consumo.

Esse supermercado funciona como extensão do corpo do artista e como espelho de outros corpos colocados à venda diariamente. Corpos negociados, descartados, desvalorizados. Corpos em liquidação, sem direito a devolução.

Entre prateleiras e etiquetas, materializa-se a tensão entre o íntimo e o público. A obra se constrói como uma pergunta encarnada: até onde o sistema pode ir antes que o corpo deixe de existir como corpo e passe a operar apenas como produto descartável?

A performance investiga a mercantilização dos corpos migrantes, a espetacularização da intimidade e os regimes contemporâneos de visibilidade e controle do HIV.

Está prevista a produção de um lenço exclusivo em parceria com Agnès b.

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Livro-dossiê

A Chave de Casa, Eu Guardo Onde? (edição francesa)

A Chave de Casa, Eu Guardo Onde? nasce já em contexto de refúgio. Embora impresso no Brasil e publicado em português, sua origem não é territorial, mas política: trata-se de um livro produzido desde o exílio.

A primeira edição foi realizada em tiragem extremamente reduzida, com apenas 24 exemplares. Desde o início, o livro não foi pensado como objeto comercial, mas como dispositivo de circulação, partilha e preservação de memória.

Um dos exemplares permaneceu no Brasil com uma função específica: circular como biblioteca comunitária. Não há mediação sobre esse percurso. Quem lê passa adiante, e os próprios leitores definem como, quando e para quem o livro seguirá. A circulação se torna parte constitutiva da obra.

Outros exemplares integram acervos públicos e privados. Um exemplar passou a integrar o acervo raro e especial da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, e outro encontra-se na Biblioteca de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Esses depósitos asseguram a preservação institucional do trabalho sem interromper sua lógica política de circulação.

​A edição francesa propõe uma ampliação do livro como dossiê documental. Não se trata de uma simples tradução, mas de uma reconfiguração do trabalho para um novo campo de transmissão, incorporando a experiência do refúgio o livro articula escrita literária e performativa com arquivo bruto. Reúne cartas, documentos oficiais, registros de censura, fotografias, imagens, recortes de imprensa e materiais diversos, organizados de modo não linear. A leitura se dá como experiência física, fragmentada e ativa.

Nesta nova versão, A Chave de Casa, Eu Guardo Onde? afirma-se como o eixo documental de Voltar Não É Verbo: um arquivo de sobrevivência concebido no exílio, destinado à circulação internacional em instituições culturais, universidades e contextos de pesquisa dedicados à migração, aos direitos humanos e às artes.

Filme híbrido

Voltar Não É Verbo

Registrar o exílio como forma de proteção. Diante da perseguição sofrida por Órion Lalli pelo Estado brasileiro, acusado criminalmente por vilipêndio religioso, o gesto de filmar se tornou um dispositivo de sobrevivência. Registrar foi uma maneira de permanecer vivo, de produzir prova, de não desaparecer.

O filme nasce da urgência de documentar um processo de expulsão política, atravessado pelo crescimento da religiosidade institucional no Brasil e por sua interferência direta nas políticas culturais, nos discursos de ódio e nos mecanismos de censura. Nesse contexto, a câmera opera como testemunha e como escudo.

Embora parta de acontecimentos reais, o filme não se organiza como documentário tradicional. Ele é híbrido por natureza. Ao longo de todo o percurso de saída do Brasil, do pedido de refúgio e da instalação provisória na França, foram criadas e registradas performances e videoperformances concebidas como respostas diretas à violência vivida. Essas ações não ilustram os fatos, mas os atravessam, produzindo linguagem onde a palavra já não era suficiente.

O encontro com um grupo de pessoas refugiadas em uma casa de acolhimento, onde viviam também crianças e pessoas idosas, torna-se um ponto central do filme. A convivência cotidiana, a espera administrativa, o compartilhamento de espaços mínimos e a construção de vínculos provisórios transformam o exílio em experiência coletiva. É nesse contexto que novas performances surgem, não como encenação, mas como forma de comunicação possível entre corpos deslocados.

O filme flerta constantemente com diferentes regimes de imagem: documentário, performance, vídeo-arte e instalação, com duração prevista de aproximadamente 70 minutos.

Práticas de transmissão

Oficinas CAMPO DE VISÃO

As práticas de transmissão de Voltar Não É Verbo se materializam em uma edição de quatro workshops, realizados ao longo do mês de dezembro. As oficinas são abertas ao público e não exigem formação prévia em artes.

Os encontros compartilham o método Campo de Visão de Marcelo Lazzaratto, um exercício de criação cênica. Órion Lalli investiga como a experiência do deslocamento forçado atravessa o corpo, altera o repertório físico e reorganiza as relações entre o individual e o coletivo.

As oficinas partem de questões simples e fundamentais: o que o exílio produz no corpo? Como a perda de território, idioma e estabilidade se inscreve fisicamente? Como o corpo guarda memórias que não encontram linguagem verbal? E de que maneira essas marcas podem ser compartilhadas, elaboradas e transformadas em ação coletiva?

O trabalho se organiza a partir de práticas corporais acessíveis, exercícios de presença, escuta e composição, nos quais o corpo é tratado como espaço de memória e ferramenta de pensamento. O foco não está na técnica, mas na experiência: como cada corpo chega, ocupa o espaço, observa, reage e se relaciona com os outros.

Campo de Visão propõe um deslocamento do olhar e cria um espaço seguro de experimentação, onde experiências de exílio, migração, isolamento, adoecimento ou ruptura podem ser atravessadas sem a exigência de exposição narrativa ou confissão.

Em um período do ano marcado pelo isolamento social, especialmente para pessoas migrantes e refugiadas, essas oficinas funcionam como espaços de encontro, escuta e partilha. Mais do que formação artística, tratam-se de práticas de cuidado coletivo, transmissão de saberes corporais e construção de comunidade temporária.

As oficinas reforçam a dimensão pública do projeto ao transformar o método de criação desenvolvido no exílio em ferramenta acessível, capaz de dialogar com públicos diversos e ampliar a circulação do projeto para além do espaço expositivo.

Condições materiais de realização e Considerações finais

Voltar Não É Verbo é concebido, produzido e executado integralmente por Órion Lalli. A ausência de equipe fixa não é uma escolha estética, mas uma condição material ligada ao exílio, à precarização e à necessidade de controle sobre os próprios arquivos.

Para a realização do filme, é indispensável a aquisição de um computador adequado à edição audiovisual. No eixo editorial, o projeto depende de financiamento para a impressão do livro-dossiê.

Além disso, propõe-se um apoio financeiro mensal de 1.500 euros, destinado à subsistência do artista durante o período de produção, residência e ativação do projeto, cobrindo aluguel, alimentação e custos cotidianos de trabalho.

Esse apoio garante a continuidade do processo e a realização efetiva dos quatro dispositivos do projeto.

Voltar Não É Verbo articula criação artística, arquivo documental e transmissão política a partir de experiências reais de exílio, migração forçada e precarização da vida. Ao reunir quatro dispositivos interdependentes, o projeto constrói um campo contínuo de produção de memória e circulação pública. Sua realização na La Fab inscreve essa experiência em um contexto institucional capaz de sustentar processos artísticos atravessados por questões urgentes de saúde, migração e direitos humanos, transformando a instituição em espaço ativo de trabalho, convivência e transmissão.

Órion LALLI

(1994, São Paulo, Brasil) é artista pluridisciplinar, atualmente radicado na França. Desde 2005, sua pesquisa concentra-se nas intersecções e influências entre dança-teatro e performance art. Com trabalhos apresentados na América Latina e na Europa, desenvolve uma prática que articula corpo, imagem, escrita e arquivo, operando entre artes visuais, artes cênicas e audiovisual.

Em 2021, participou do webinar Speaking Truth to Power: Religious or Belief Minority Artists, Voice and Protest, organizado pelo Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights (OHCHR) em parceria com a organização dinamarquesa Freemuse. No mesmo ano, integrou a Safe Havens Conference, organizada por Safe Havens (SH|FT) e Freedom Talks. 

No campo acadêmico e de pesquisa, iniciou seus estudos na Faculdade de Comunicação, Artes e Design (FCAD), em São Paulo, com a pesquisa (Per)Forming – A busca do saber corporal no estado do Ser, a partir da qual criou a Residência Per(for)m Artistas, encontro mensal de compartilhamento artístico. No Centro de Artes Cênicas Célia Helena, desenvolveu a pesquisa Olhar sobre o olho que olha para o nada, propondo um espetáculo voltado a pessoas não videntes, baseado em lendas indígenas.

Âmbar ARMAS

Je suis née à Caracas. Je développe une pratique artistique multidisciplinaire. Je commence l’art à 16 ans et étudie la photographie, la peinture ainsi que la sculpture. Arrivée en France en 2022, je réalise des installations visuelles et participe à des expositions. Je m’investis dans des projets de transmission culturelle.

Nataliya PERMITINA

Je suis née à Moscou. Je suis ingénieure-chercheuse en électronique. Diplômée d’ingénierie électronique, à l’Institut Minier de Moscou, je dépose un brevet qui permet de sécuriser le travail des mineurs en Russie. Je passe cependant la plus grande partie de ma carrière dans le domaine de la publicité et du marketing où je mets en place des stratégies commerciales. Mon domaine d’expertise se situe dans la relation client et la gestion de campagnes promotionnelles. Après le déclenchement de la guerre en Ukraine, je quitte la Russie. Après mon arrivée en France, je participe activement à des projets collectifs qui interrogent les parcours migratoires. En 2022, je présente une lecture performative avec Yana Rodzobuko dans le cadre d’Actoral au couvent de la Comerie.

Arsenii MAZHUGA

Je suis né à Saint-Pétersbourg. Je suis un artiste pluridisciplinaire, musicien électronique, photographe et cameraman. Diplômé en direction de la photographie à l’Institut du cinéma et de la télévision de Saint-Pétersbourg en Russie, je produis également de la musique allant du punk à la techno, organise des évènements et anime une émission de radio. Je produis également des bandes originales de films, de courts-métrages et de pièces de théâtre. En mars 2022, je me rends en Géorgie et forme un duo de musique électronique russo-ukrainien avec Sergiy Verkhovskyy.

"Cette bière n'est pas une vraie bière, bien que cela soit peut-être compensé par le fait que ces cigares ne sont pas non plus de vrais cigares - mais votre passeport, ça doit être un passeport. Sinon, ils ne vous laisseront pas entrer."

 

                                        Dialogues d’exilés, Bertolt Brecht

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