Reagente positivo pra HIV

Essa foto foi tirada poucos minutos depois do resultado do meu exame de HIV. Pra falar sobre ela eu preciso contar antes uns babadinhos...


Quando me deparei com a notícia - REAGENTE POSITIVO PRA HIV - Imediatamente pensei


- Isso vai virar uma performance!


Talvez como tudo que faço é baseado nesses repertórios pessoais ou construídos coletivamente, tenho que potencializar arte.




Eu não tinha quase nenhuma informação sobre HIV/AIDS, fiz o primeiro teste antes do diagnóstico final (É muito uó colocar final, porque o final pra mim é a morte, e por hora estou super viva, na real nem existe final, vou dizer então 1° não diagnóstico), no dia 05 de setembro de 2017 – REAGENTE NEGATIVO.


Mas ainda tinha algo que pairava na minha cabeça e se intensificava a cada dia e não era apenas as coceiras que apareceram no meu corpo de repente, sem manchas, sem vestígios. E nem a semana que fiquei muito doente como nunca antes, era todo o entorno sabe? Pulavam da televisão matérias sobre HIV e a taxa de infectados pelo vírus que duplicava na África e pessoas que morriam e toda aquela velha visão da AIDS e o vírus letal, sem contar os conhecidos


– Se viu fulano? Tá com AIDS!


Sim em 2017 ainda usavam AIDS e eu também usava, sempre foi o processo da desinformação, não se fala nas escolas, não se falava em casa e não era permitido falar, continuavam...


- Também era uma puta! Fazia de tudo. Duvido que usava camisinha!


Sabe, eu duvido que alguém use camisinha! Ou melhor que alguém nunca deixou de usar a camisinha! É bom na pele, o quentinho da pele na pele. Aquele jato de porra dentro do cu.



Bem... Minha mãe virou um dia e disse que tinha visto um casal de garotos na porta de um consultório, os dois choravam muito e a mãe de um deles que estava no local os abraçava e dizia que ficaria tudo bem. Márcia (minha mãe) falava aquilo, comigo erguido de dentro da água salgada daqueles olhinhos que me viram crescer.


Eu sempre gostei de observar muito e o que mais eu observava era o meu corpo e naquela época ele não tava como sempre foi, tinha um quê de sei lá.... Algo está por vir e eu de certa forma sentia isso.


Sou muito mitológico e é estranho empregar as palavras assim, mas sou muito mesmo, já sendo iniciado desde antes de nascer – ÓRION – em homenagem ao meu avó paterno, índio, guerreiro, caçador, ahh, nasci dia 24/10/1994 (Predestinado né? Eu sei) Nasci pra ser bixa mesmo e do signo de escorpião, uma curiosidade cósmica.


Em uma das muitas versões mitológicas, Órion o caçador e muito “amigo” de Ártemis enciumou Apolo irmão da Deusa por ser um caçador melhor que ele (e isso sou mesmo, caço uns boy como ninguém), diante disso Apolo solta um escorpião gigante para matá-lo, Órion foge pelas aguas, ele é filho de Poseidon então sabia caminhar por elas (Quase uma Jesus Crista né ?), em resumo Apolo aposta com Ártemis que ela não seria tão boa na mira e acertaria o pontinho no mar, que no caso era Órion, Ártemis dispara em direção ao pontinho e acerta o crânio de Órion depois chora as pitanga pra Zeus e implora para que o transformasse em estrela.



Por isso a constelação de Órion aparece como se fosse matar o escorpião bem na sua frente que por sua vez parece persegui-lo.


É muito assustador pensar que existiu uma campanha sobre HIV/AIDS em 2004 de uma ONG francesa onde aparecia um homem fudendo com um escorpião, e o bicho estava com os ferroes prontos pra dar aquela pica dura (risos) Além da frase “sem camisinha você está dormindo com a AIDS”


Essa campanha foi uó, vamos combinar né? Um dia entro em todas as problemáticas dela, voltaremos ao ponto que falava de que algo estranho acontecia com meu corpo.


Sempre fui muito sexual, até fiz 8 anos de psicólogo quando criança por isso, transava com 13 anos, na escola, no ônibus, no banheiro, no camarim dos teatros, em casa, com gente conhecida e uns que nunca nem tinha visto na vida.


Quando fiz o teste do 1° não diagnóstico, 1 mês antes eu estava saindo com um menino que eu tinha me apaixonado muito, ele veio morou em casa e já falávamos em casamento, bem essa história vai ser longa então vou pular a parte desse boy.


Saí no dia 05 de setembro de 2017, ainda com a coceira insuportável no corpo todo, porém tinha o 1° não diagnostico, isso em São Paulo, ficando hospedado em um amigo o J. que hoje considero como minha irmãzinha cacura. Contei do resultado e ele disse que achava melhor repetir os exames só que era pra fazer os de sangue mesmo e não só teste rápido.


Eu não sabia da janela imunológica, que pode levar sei lá 30 dias pro HIV se manifestar no corpo, enfim no dia seguinte foi o dia da virada!


Dia, 06 de setembro de 2017 – O REAGENTE POSITIVO PARA HIV, TÃM DÃM



Fui super de boas fazer a coleta para os exames, estava despreocupado, tinha a certeza que seria qualquer outra coisa menos HIV.


Fui atendido e colhi o sanguinho e fiquei aguardando o resultado.


Nessa sala de espera tinham 3 mulheres, todas em torno dos 35 – 40 anos, saiu um menino super sorridente da sala da doutora e foi embora, logo em seguida entra uma das mulheres, e em poucos minutos escuto um chororô de dentro da sala. Pensei


– Ihh acho que é a AIDS!


Já disse que não sabia a diferença de HIV/AIDS né? Nisso eu pensei outra vez:


- Caracas olha uma oportunidade de pesquisa! PERFORMANCE PERFORMANCE hahahaha


E deu uma vontade de escrever como seria se eu recebesse o resultado positivo pra HIV, olhei pra sala, as duas restantes com uma ansiedade que era nítida, pensava quais as estórias dessas mulheres? Porque elas estão aqui? Não é só viada que tem HIV?


E ai reparei que o chão da sala de espera era em tons de verde e a divisória era verde e o quadro também e a televisão de tubo e o estofado das cadeiras a garrafa de café verde a mesinha de centro com fórmica verde a toalhinha da mesinha e o sapato de uma das mulheres e duas cartilhas verdes, porra tudo era verde inclusive a camisa gola polo que eu estava, cafonérrima, era verde, então escrevi esse texto:


Verde seis paredes. Uma daquelas antigas valvuladas, pactuando com a cor. Pacto de Sangue. Verde era verde. Tudo verde Hera. Sangue verde musgo. Mofado.

Embolorei.


Não deu tempo de terminar nem pensar em mais nada, ouvi chamar meu nome, confesso que aí gelei. Fui entrando na saletinha minúscula com duas cadeiras uma de frente pra outra com a mesa entre elas, a Doutora já sentada e uma mocinha que tinha acompanhado a coleta no andar de baixo, a Doutora diz:


- A Fulana vai ficar aqui, porque ela é nova então estamos mostrando como funcionam os processos.


Era tudo combinado, e eu nem fazia idéia de nada. Eu fiquei sentado de costas pra porta e de frente pra Doutora essa Fulana ficou exatamente atrás de mim e trancou a porta.


- Então Órion vamos lá! Estamos com seus exames aqui pra algumas IST´S e HIV certo?


- Isso!

Eu já tava azul de tanto frio na barriga.


- Olha, deu reagente negativo pra sífilis, pra não sei o quê mais...


- Nossa uffa doutora


Já estava pegando meu celular da mesa pra ir embora, não era HIV tinha feito exame um dia antes né!!


- E deu reagente positivo pra HIV.




essa foi minha cabeça processando a informação


- O quê? Ontem deu negativo!


Peguei desesperado a folha da mão da Doudora e desabei a chorar, no mesmo impulso levantei pra sair dali e a Fulana me pegou pelos ombros e me sentou na cadeira, joguei a folha na mesa, e o choro só aumentava e lembro de dizer coisas como:


- Não sei porque tô chorando


- O que?


- Isso tá errado!


- Ontem doudora! Ontem eu fiz exame!


- O que?


- Não, não é impossível!


E ficava nesse looping infinito de conversas com minha própria cabeça, e as duas falando comigo algo sobre tratamentos, sobre indetectável, sobre sei lá o que, eu só queria sair dali, fui percebendo que quanto mais eu me desesperasse mais elas me seguravam.

Então o ator entrou pro jogo! Comecei a acalmar a parte de fora da minha pele, sequei o rosto e olhava atentamente os lábios da Doutora com seu batom verde, brincadeira, com seu batom vermelho desgastado pelo copinho de café. Eu não ouvia absolutamente nada, nadica de nada.



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- Onde tenho que ir?


Ela me dá um papelzinho com alguns locais pra iniciar o tratamento. Nisso eu continuo como se nada tivesse acontecido, pego o meu celular finjo que ligo pra minha mãe:


- Oi mãe, tudo bem sim, então pode vir me buscar? É melhor falar pessoalmente, não mãe não é nada é só Herpes.


Imaginem a cara das duas pra mim, fazendo aquela cena toda. Tenho certeza que estavam sacando tudo, uma olhava pra outro do tipo


- Olha esse close Marileide


- Gente que bom ator esse menino né?


- Acho que vou convidar ele pra vestir um cabeção na festa de aniversário do meu filho!


E eu continuei a cena, a Fulana me ofereceu café e eu bebi e disse que iria no banheiro. Coloquei o celular pra despertar em 5 minutos, e voltei pra sala.


A Doutora já falava de uma viagem que tinha feito e blá blá blá e eu observava atentamente o papel – REAGENTE POSITIVO PRA HIV – 3 ... 2... 1... TOCOU. Finalmente


- Oi mãe tô descendo.


Saí, passei pela sala verde, desci as escadas dei um xauzinho pra recepcionista, atravessei a rua, fui até a banquinha, pedi 2 maços de cigarros, abri um deles, procurei o isqueiro, não tinha.


- Moço me dá esse verdinho por favor! O pequeno mesmo!


Paguei, peguei um cigarro coloquei na boca e quando eu fui ascender!


A Maysa começou a cantar ....



- Meu mundo caiu e me fez ficar assim ......


Os carros passando, o centro movimentado, barulho de obras, e eu ali estático fumando o cigarro e vendo aquele mundo em velocidade super reduzida.


Tudo tinha outra cor, novos sons. Vi um grupo de meninas tirando fotos dos prédios ao redor e ai pensei “Isso vai virar uma performance!”


- Moça pode tirar uma foto minha?


Eu dizia em prantos, afoito e com os pensamentos tão distantes dali. Depois descobri o nome dela Beatriz como uma das minhas irmãs. Ela me olhou com uma cara de ???



- Moça eu acabei de descobrir que sou AIDÉTICO!


Gente que vergonha né! Em 2017 eu que já tinha feito uma faculdade ainda falava umas baboseiras dessas, hoje olho pra esse dia e penso poxa... poderia ter sido diferente né? Imagina se tivesse informação nas escolas, nos jornais, se a igreja tivesse dado uma segurada na ondinha babaca dela, se o Estado botasse a cara pra jogo, mas foi isso que eu disse.


Ela me olhou me deu um abraço forte, que apenas recebi e talvez não tenha retribuído e tirou essa fotografia VERDE.



As fotos são colocadas aqui sem edição e da forma que eu recebi dessa moça pelo Facebook (Beatriz Zupo - Não tive a oportunidade de te agradecer pessoalmente, espero te encontrar qualquer dia e te devolver aquele abraço, obrigada)

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