Sobre EM.COITROS

Atualizado: Jul 2


A tentativa do pensamento a seguir é a transcrição de alguns stories do Instagram sobre o projeto EM.COITROS - Encontros eróticos de um corpo que vive com HIV!

Muita gente vem falar comigo questionando sobre como eu me debruço na temática do HIV relacionando o sexo, a religião, falando sobre os cultos, sobre ritos, sobre mitos. Simples... tudo isso é o que me atravessa! É a forma que eu resolvi trabalhar HIV/aids, acredito que antes de falar do HIV eu devo falar sobre o sexo, o meu corpo vivendo com HIV e o sexo e sobre essas Instituições.



Vejo uma galera construindo uma narrativa que talvez não me sirva e não me comtempla, que constrói uma barreira, uma fortaleza psicológica para falar de HIV/aids.

Os estigmas sociais foram instaurados desde os primórdios humanos e nem falo só de todos esses estigmas sobre o sexo e o corpo gay. Pra mim cabe falar desse lado humano, das dualidades, desse medo que passamos por não ter conhecimento, por não ter informação e não é um problema nosso e sim de uma construção histórica social.


Então vou falar dessa dor sim, que senti por não ter conhecimento, talvez se eu o tivesse, isso teria sido uma coisa outra. Mas não vou apagar esse passado, não posso apagar isso que se formou nesse corpo que vive com HIV e na estória desse corpo.


É como aquele jarro que se quebra e eles vão colando os pedacinhos com a mistura de cola e ouro, é sobre não ser super herói, não ser forte o tempo todo, eu choro e algumas coisas ainda me atravessam.


Sim é possível viver com HIV, sim existe um tratamento super eficaz, sim eu falo sobre isso, sim existe um sistema gratuito - SUS - de distribuição desses recursos para se VIVER com HIV.



Só que eu não quero e não vou apagar ou redesenhar essa estória por um pensamento que pra mim, soa como acadêmico demais. Porque não é isso que acontece, esses ciclos de pensamentos ficam só na rodinha daqueles que estão debatendo o HIV e muita gente não sabe nem como se contrai, não sabe que existem tipos de tratamentos eficientes para se viver, não sabe nada de nada.


Por isso falo de sexo, dessa matéria prima, do gozo, da vida, e sobre o que é a morte, e como se relacionam com ela.


E eu pergunto o porquê que ainda as pessoas enxergam a morte como um processo negativo, perigoso, ruim. Eu entendo toda a história do HIV em relação a morte, eu entendo todas essas problemáticas, por exemplo, da cor vermelha não ser associada ao HIV, porque é a cor da morte do perigo, eu entendo e uso “um corpo que vive com HIV”, porém eu entendo a morte como parte da vida, a gente nasce já tendo essa certeza e pra mim é muito maravilhoso saber que eu vou morrer e saber que cada dia que eu vivo eu me aproximo da morte e é interessante desmistificar essa morte dito como coisa ruim, a gente morre e se estamos aqui estamos morrendo e é isso e isso torna tudo muito maravilhoso.


Talvez algumas pessoas me interpretem de uma forma equivocada, porém é a minha construção disso, sou eu e não vou por uma capa e sair voando, eu vou contar a minha estória e como ela se instaurou nesse corpo.



Esse vaso que foi quebrado por uma Instituição e por um Estado e depois se reconstruiu através da sua própria força, que vai e coloca uns fios de ouro e resolve botar a cara no mundo e falar em HIV/aids, sexo e Instituições e ser censurado e continuar falando e continuar soltando essas provocações até mesmo dentro desses núcleos que pesquisam e falam de HIV/aids.


Essa dor minha, não é e não foi, uma coisa ruim e sim um alimento, é esse vaso quebrado e que você pode consertar com ouro, me interessa essa fragilidade e a poética que existe nela e em sua construção, por isso que continuo fazendo dessa forma.


Espero que tenha chegado algo para alguém e que faça algum sentido. Essa pesquisa segue nesse formato, não desmerecendo outras abordagens ou outras formas de pensamentos relacionadas ao tema, mas essa é a que me cabe e a forma que eu acredito ser útil.


Estamos vivas, por mais que o Estado ou que essas Instituições não queiram, estamos, vivemos e falamos sobre HIV, doa a quem doer! Vivemos até que a morte nos separe!



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