sobre EM.COITROS

Atualizado: Set 11


A tentativa do pensamento a seguir é a transcrição de alguns Stories do Instagram sobre o projeto Em.coitros - Encontros eróticos de um corpo que vive com HIV!


Muitas pessoas me questionam sobre como eu me debruço na temática do HIV relacionando o sexo, a religião, cultos, ritos, mitos. Simples ... é o que me atravessa é a forma com que eu resolvi trabalhar HIV/aids, acredito que antes de falar do HIV eu devo falar sobre o que é o sexo, o meu corpo vivendo com HIV e novamente sobre essas Instituições.


Vejo uma galera construindo uma narrativa que talvez não me sirva e não me contempla, construindo uma barreira, uma fortaleza psicológica para falar de HIV/aids.


Os estigmas sociais foram estabelecidos desde o início dos tempos, e não estou a falar apenas de todos estes estigmas do sexo gay e o corpo gay. Para mim, vale a pena falar deste lado humano, das dualidades, deste medo que temos de não ter o conhecimento, de não ter informação, e esse não é o nosso problema, mas sim de uma construção social histórica.


Então vou falar dessa dor sim, que senti por não ter conhecimento, talvez se eu o tivesse, isso teria sido uma coisa outra. Mas não vou apagar esse passado, não posso apagar a estória desse corpo.


É como aquele jarro que se quebra e eles vão colando os pedacinhos com a mistura de cola e ouro, é sobre não ser super-herói, não ser forte o tempo todo, eu choro e algumas coisas ainda me atravessam.


Sim é possível viver com HIV, sim existe um tratamento super eficaz, sim eu falo sobre isso, sim existe um sistema gratuito pelo SUS de distribuição desses recursos para se Viver com HIV, como antes não se vivia.



Só que eu não quero e não vou apagar ou redesenhar essa estória por um pensamento que pra mim, soa demasiado acadêmico. Não é isso que acontece! Esses ciclos de pensamentos ficam só na rodinha daqueles que estão debatendo o HIV e muita gente não sabe nem como se contrai, não sabe que existem diferentes tipos de prevenções ou tratamentos, ou não sabem nada de nada.


Por isso falo de sexo! A matéria prima! Do gozo! Da vida! Sobre o que é a morte, e como se relacionam com ela.


E eu pergunto o porquê que ainda as pessoas enxergam a morte como um processo negativo, perigoso, ruim? Eu entendo toda a história do HIV em relação a morte e todas essas problemáticas da cor vermelha não ser associada ao HIV, porque é a cor da do perigo/morte, eu entendo e por isso uso “um corpo que VIVE com HIV”, porém eu vejo a morte como parte da vida, já nasci tendo essa certeza e pra mim é maravilhoso saber que eu vou morrer e saber que cada dia que eu vivo eu me aproximo da morte. É interessante desmistificar essa morte dita como coisa ruim, a gente morre e se estamos aqui estamos morrendo e é isso é isso torna tudo muito mais saboroso.


Talvez algumas pessoas me interpretem de uma forma equivocada, porém, por hora, é a minha construção disso, sou eu e não vou por uma capa e sair voando por aí como um herói do HIV, eu vou contar a minha estória real e da forma que eu me sinto bem!



Ser destruído por uma Instituição e por um Estado e depois se reconstruir através da sua própria força, e colocar fios de ouro e resolver botar a cara no mundo e falar em HIV/aids, sexo e Instituições e ser censurado e continuar com essas provocações até mesmo dentro desses núcleos que pesquisam e falam em HIV/aids.


Essa dor minha, não é, e não foi, uma coisa ruim e sim um alimento, é esse vaso quebrado e que você conserta com ouro, me interessa essa fragilidade e a poética que existe nessa fragilidade e na construção dela, por isso que continuo fazendo dessa forma.


Espero que tenha chegado algo para alguém e que faça sentido. Essa pesquisa segue nesse formato, não desmerecendo outras abordagens ou outras formas de pensamentos relacionadas ao tema, mas isso é o que me cabe e a forma que eu acredito ser útil em falar sobre isso.


Estamos vivas, por mais que o Estado ou que essas Instituições não queiram, estamos, vivemos e falamos sobre HIV, doa a quem doer! Vivemos até que a morte nos separe!

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